O segundo dia do roteiro começou às 7:30 horas. Sr. Nestor tinha pressa em partir para garantir um bom lugar no alojamento da próxima noite; ao som da mesma fita do Carnaval de Oruro, deu a partida. O caminho foi bordejando o salar de Chiguana, lamacento, com bórax em abundância, até encontrar a "carretera internacional", ainda em obras, de onde se alcança o "mirador del Ollague".
O Ollague estava encoberto, mas a geografia do mirador era impressionante pela escultura das formações vulcânicas. De lá, logo cruzamos os trilhos da ferrovia que liga a Bolívia ao Chile, por Calama, e efetivamente começamos o percurso off road. Por caminhos cobertos de pedras, quase trilhas, com nevados ao lado, passamos a contornar 5 lagunas, cada uma com sua característica particular: Cañapa, a 4.100 m, Hedionda (com forte cheiro de enxofre, daí o nome, que em português significa "fedorenta"), Chiar Khota, Honda e Ramadita. Almoçamos na Laguna Honda.
Enquanto Sr. Nestor preparava um arroz de quínua, salada e esquentava o frango que já trouxe assado, pudemos caminhar pela beira da laguna onde se encontravam alguns poucos flamingos. O tempo foi fechando, e quando a comida foi servida começou um respingar que logo se transformou numa forte chuva de granizo. Terminamos de comer dentro da Toyota e dispensamos as mangas da sobremesa. Dali para diante, a temperatura foi baixando e o que parecia chuva se tornou mesmo uma nevasca de janeiro.
Estávamos em pleno pampa desértico, sem nenhuma vegetação e dominando uma subida leve porém contínua. Algumas touceiras amarelas pontuavam a pampa e seguravam a neve, formando meias luas. Por sorte passou a chuva pouco antes de chegarmos ao deserto de Sioli, descampado onde a ação do vento sobre as rochas esculpiu formas incríveis, como a "árbol de piedra".
Paramos para caminhar e fotografar, sob um forte vento frio. No inverno, é difícil descer por ali, pois o vento é muito mais forte e congelante. Ademais, ele vem carregado com muita areia e em pouco tempo torna completamente foscos os vidros e a pintura dos veículos. Subimos até quase 5 mil metros, passando pelo Paso del Inca ainda com neve. Desde lá, descemos um pouco até a entrada da Reserva Nacional Eduardo Avaroa, criada em 1973, com 715,7 hectares em altitudes entre 4 e 6 mil metros, para proteção do habitat de flamingos, vicuñas e suris, além das demais espécies animais e vegetais.
Laguna Colorada
No Parque está sob completa proteção a Laguna Colorada (a 150 km de San Juan). Esta impressionante laguna está a 4.278 m. Sua coloração efetivamente avermelhada deriva do pigmento de microrganismos (algas e plâncton), que são o alimento dos flamingos. O guarda parque controlou nossos passaportes, e pagamos U$ 4,5 de entrada. Não descobrimos se por pressa para chegar ao alojamento ou se por ordem extrema, passamos muito rapidamente pelas margens da laguna mais fantástica de todo o recorrido, sem mesmo termos podido fotografar de dentro do carro a exuberante fauna de flamingos e outras aves. Fortemente vermelha, com algumas línguas mais vermelhas ainda, e mais cheias de flamingos com a plumagem muito rosada, e uma orla verde, com muitas touceiras bem amarelas, e um alinhamento branco como espuma do mar. Dentro dela, pequenas ilhotas brancas (acúmulo de bórax, principalmente, mas também sódio, magnésio e gipso).
Paramos apenas no mirante da laguna, de onde não se podia capturar as imagens mais deslumbrantes que acabamos de ver. Mas, dada a justificativa de que os flamingos estavam em período de reprodução e não era permitido nada além de parar no mirante, conformamo-nos, tentamos congelar o vermelho das águas em nossas fotos e seguimos viagem, até porque a chuva recomeçou com força.
O Alojamento
A poucos minutos dali, o alojamento da Laguna Colorada é uma construção totalmente sem graça, imensa, com janelas e portinholas num paredão mal acabado, algumas partes com corredores amplos onde ficavam as mesas para refeições, outras com as mesas nos próprios quartos. Os banheiros, comuns, sem ducha quente, anunciavam que pela manhã estariam difíceis de serem usados... Fazia muito frio, mas o quarto reservado para nosso grupo tinha 7 camas e uma mesa. Cada um escolheu seu cantinho, acomodou as mochilas, e nessa hora descobrimos que os sacos de dormir que tínhamos conseguido emprestado estavam completamente molhados. Os israelitas, que não tinham negociado sacos e estavam preocupados com o frio, riram por dentro; e nós, levamos na brincadeira, argumentando que melhor é o calor humano! Logo fomos agraciados com um chá com biscoitos. Foi o momento de abrir um bom trago brasileiro e oferecer para nossos companheiros israelitas: uma verdadeira cachaça tratada com carqueja que motivou uma série de fotos do grupo unido. Amainou o frio, mas decidimos que a dormida seria com roupa e tudo.
Cada cama tinha lençóis e 2 cobertores, mas os vidros das janelas estavam remendados com plástico e se percebia um sopro gelado que certamente iria aumentar durante a noite. O tempo não aparentava melhorar, mesmo assim decidimos que, até debaixo de chuva, seguiríamos pela manhã na direção dos geisers. Sr. Nestor tentou nos demover da idéia, mas resistimos! Com o entardecer, a chuva se foi e pela noite as nuvens começaram a se deslocar Bolívia adentro e as estrelas anunciaram a boa manhã! Jantamos nossa sopa, com direito a uma macarronada como "segundo", e fomos avisados que seríamos acordados às 4:30 horas, para partirmos às 5, sem café da manhã. Caminhamos um pouco noite adentro, com todo o agasalho que levamos, respirando o clima da alma da Cordilheira. Estávamos entre vulcões, muito próximos de onde a terra revelava o fervor de suas entranhas.
O que é bom não esquecer:
Embora sejam verdadeiros os alertas de que as temperaturas caem demais nessa região (entre -15º e -20º no inverno), durante o verão os alojamentos são mais que possíveis. À noite a temperatura beirou 0 grau, mas mesmo assim, os sacos de dormir, molhados, não fizeram a menor falta. Para caminhar pela região é preciso estar com bons agasalhos, corta-vento, e calçados secos com boas meias. Mesmo os que não gostam de gorro, luvas e cachecol, à noitinha sentem falta deles e se tiver alguém que lhes empreste, ficam muito gratos. Além de água, que é bom levar várias garrafas, não se pode esquecer papel higiênico. Esse esquecimento fez valer boas risadas: na busca de um quiosque que vendesse, perguntei aos motoristas, que estavam todos reunidos num salão perto da cozinha, onde haveria um lugar que vendesse água e outras coisas mais. Ele foi imediatamente em busca de uma garrafa d'água. Aí, sem graça, disse que na verdade procurava mesmo por papel higiênico. Todos riram muito, perguntando se no Brasil papel higiênico também seria chamado de água... E da mesma forma prestativos, levaram-me onde vendiam os necessários rolos de papel.
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Rosa Moura
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