"Recomendaram-nos sair de San Pedro por Tur-Bus, mas optamos pela Frontera del Norte, pelo horário e preço inferior da tarifa (U$ 5,4). O ônibus, sem nem limpador de pára-brisas (e há 2 dias havia chovido muito pela tarde), partiu maravilhosamente bem por entre a Cordilleira de la Sal, com uma iluminação perfeita de fim de tarde, e assim foi os quase 100 km de ótimo asfalto que unem San Pedro a Calama. O cenário de deserto foi se acentuando e os nevados ficando cada vez mais distantes. Quase em Calama, da estrada se via uma enorme escavação minera. Ficamos sem saber se efetivamente era Chuquicamata, mas, seguramente, a mina fazia parte da reserva de cobre cuja exploração faz parte da história do Chile. Enquanto tentávamos descobrir que mina era, ouvimos uma forte explosão. Alguém do grupo, imediatamente, colocou a cabeça para fora da janela e o vento do deserto soprou longe seu boné e óculos! Havia estourado um pneu, e com a parada, boné e óculos foram recuperados, embora prejudicados pela areia. Não havia pneu de suporte, nem rádio, o que fez com que o ônibus seguisse viagem lentamente, pelos poucos quilômetros que faltavam. Assim, vimos o sol se por na entrada de Calama.
Calama (24/01/2005)
A estação de trens foi a primeira parada do ônibus e ali desceram os mochileiros que seguiriam para Uyuni de trem, à noite. Descemos também e fomos em busca de um alojamento que tínhamos a indicação (Valle de la Luna, U$ 9). As cidades do Chile se parecem muito com as nossas. A abertura da economia trouxe características urbanas, padrões de consumo e produtos que acabaram igualando todos os lugares. Criaram o que se chama de "não-lugares", ou seja, espaços iguais em qualquer parte do mundo. Os McDonalds são um bom exemplo, pois não só a arquitetura e a decoração são muito similares, como os lanches e seu próprio sabor (nesse caso, as pequenas mudanças que incorporam hábitos do país ajudam mesmo a compor uma imagem de "diversidade e respeito cultural" propalada pela rede, que no Chile trouxe o abacate ou "palta" como substituto da maionese para o recheio). Assim, as cidades maiores do Chile já têm seus vários McDonalds, seus calçadões, seu comércio e supermercados com os mesmos produtos que os nossos, e até mesmo pessoas se vestindo e se comportando como as do Brasil. Já não se vêem índias com vestimentas próprias e o comércio de rua praticamente acaba. Calama teve seu período auge com a mineração do cobre e hoje tem ainda nessa atividade sua principal economia. Isso imprime uma característica que nos chamou a atenção: há muitos homens nas ruas e muitas casas noturnas. Apenas passamos a noite em Calama e partimos pela manhã para Antofagasta, "a pérola do norte", desta vez, de Tur-Bus.
Antofagasta (25 e 26/01/2005)
A reta de asfalto cortando o deserto era a mesma. Cada vez mais se tornava plana e infinita a paisagem. Mas, quase imperceptivelmente ia descendo dos 2.265 m de altitude de Calama, até pouco menos de mil metros. Repentinamente a estrada se separou em duas pistas e se iniciou uma descida abrupta em direção ao mar, que após as primeiras curvas apareceu fortemente azul. Em pouco mais de 10 km cruzamos a Cordillera de la Costa, talvez numa das chegadas ao mar mais impressionantes de se ver, num serpentear rápido e curto que termina numa descida reta, que entra cortando a cidade até desembocar no mar. Antofagasta, centro regional de perto de 200 mil habitantes, é uma importante cidade portuária do Pacífico. De seu passado, com forte presença dos ingleses na Guerra do Pacífico, final do século XIX, conservou poucos casarões de madeira, mantendo traços de nobreza, com varandas e bay windows, nos altos, e alguns prédios do início e meados do século passado na área central. Como marco, a Torre del Reloj, na praça Colón, construída com blocos esmaltados vindos da Inglaterra e cujo carrilhão imita o do Big Ben.
Entre um badalar e outro, seus alto-falantes tocavam todo o tipo de música (principalmente norte-americana) enquanto as pessoas se refugiam do sol nos floridos e coloridos caramanchões de bouganvilles. Frente à praça, a catedral e o moderno Teatro Municipal, e a poucas quadras, o Museo Regional, que funciona no prédio da antiga aduana, e que, além do acervo variado, impressiona pela arquitetura da construção. Outro marco é uma enorme âncora branca desenhada no ponto mais alto da encosta desértica, vigiando a cidade. Alinhada na orla, a cidade expandiu sua parte pobre para essas encostas, até onde as vertentes permitem. E sua área nobre foi erguendo prédios modernos ao longo da avenida Costanera ou Paseo del Mar, que acompanha a costa por 20 km na direção sul da cidade - essa mesma ordem de ocupação se repete em Iguique e Arica, situadas mais ao norte do Chile. Conseguimos um alojamento muito simples (Hotel Rawaye, U$ 3), mas central, num casarão com pé direito alto e uma sala com iluminação natural vinda do teto, com vãos por onde entravam pombos, que viviam entre o forro e o telhado.
La Portada
Logo partimos em direção a La Portada para o nosso primeiro por do sol no Pacífico. Com carro, a avenida que segue na direção norte, para o aeroporto, aproxima-se desse monumento natural que fica a 16 km da cidade. De transporte coletivo, no centro de informações turísticas nos orientaram apanhar o micro ônibus 29 e ir até o terminal, e de lá pegar o que vai para o balneário Juan López. Foi um percurso em ziguezague por entre as vilas da periferia, morro acima, morro abaixo, por casas construídas em série, mal acabadas, formando conjuntos, em ruas retas, paralelas à vertente. Na região do terminal, apareceram os condomínios fechados, entre a estrada e a orla. Pegamos o último ônibus para Juan López e fomos avisados do horário em que ele voltaria e que, se o perdêssemos, seria difícil retornar ao centro. La Portada é uma formação em pedra que, pela erosão provocada pelo mar e vento, foi produzindo uma fenda em arco. Fica de frente a um extenso paredão vertical ao mar - uma falésia ou acantillado. Dali se avista a cidade, muito ao longe. É o principal cartão postal de Antofagasta. O por do sol, vimos do ônibus, que chegou poucos minutos antes.
Mejillones
No segundo dia, outra vez nos dividimos e enquanto um grupo desvendava a cidade, outro foi a Mejillones, um balneário a pouco mais de 50 km do centro, antiga vila (caleta) de pescadores. O banho no Pacífico foi histórico, mas bem que a água estava gelada, cheia de águas-vivas, não havia ondas, e as areias eram escuras e pouco convidativas. Mas haviam leões-marinhos, pelicanos e o mar, extremamente azul, tinha manchas vermelhas pelo acúmulo de um tipo particular de alga, formando desenhos de rara beleza. Perto do pequeno atracadouro, pescadores ofereciam mariscos vivos.
Pudemos provar alguns, homenageando o nome do lugar. Embora o norte do Chile não tenha a quantidade de frutos do mar que se encontra no sul, há muitos mariscos deliciosos e exóticos para serem saboreados. No mercado central da cidade se concentram pequenos restaurantes especializados. O passeio a Mejillones compensou a vontade percorrer a estrada da costa até Iquique. Esse percurso, atualmente todo asfaltado, passa muitas caletas de pescadores e por Tocopilla, outra cidade de relativa importância na região. Bom para ser feito de carro, mas por ônibus, há uma única partida de Antofagasta, que vai até Arica, às 11 horas.
Arica (27/01/2005)
À noite seguimos de Tur-Bus para Arica, cidade mais ao norte do Chile, próxima à fronteira com o Peru. Foram 700 km, pela Panamericana - a rodovia internacional que corta o Chile de norte a sul - ao longo do deserto, com poucos povoados próximos à estrada e nenhuma parada, salvo para pegar/deixar passageiros em Maria Elena (povoado de uma exploração salitrera próximo a Tocopilla) e Pozo Almonte (próximo a Iquique). Fazia uma noite de lua cheia que iluminava o deserto e ressaltava o vazio aparente da pampa árida. De madrugada, numa parada para troca de motorista, o silêncio dessa imensidão trouxe de volta a sensação de impotência, do nada que somos diante de tamanha extensão de areia e pedras. Amanhecemos em Arica e nos premiamos com uma estadia num hotel com piscina (Hotel Arica, U$ 40), à beira do mar, no balneário El Laucho.
Arica se espalha contornando (e atualmente subindo) uma face do o El Morro que lhe dá a feição principal. Do alto, se avista a cidade, a movimentação dos barcos no porto, e o por do sol, que ali tem uma característica muito especial: provoca um revoar intenso de gaivotas, pelicanos e uma infinidade de aves marinhas que retornam aos seus hábitats nas encostas de beira mar, ao sul da cidade, depois de passarem o dia nas praias ao norte. Nas porções ao sul, as praias são cheias de pedras e com as areias muito negras; ao norte, são quilômetros de praias de mar aberto, com ondas fortes, areias brancas e, perto de Arica, com muitos campings. Seguem assim pelo litoral peruano. No centro, em frente a Plaza de Armas (que existe na maioria das cidades colonizadas pelos espanhóis), está a Catedral de San Marcos, que foi construída em metal, por Eiffel, inaugurada em 1876. Eiffel, o mesmo da torre de Paris, andou pela região e deixou ícones como o relógio da praça central de Iquique e uma ponte de ferro em Arequipa, no sul do Peru. Perto da praça, um monumento à memória dos bons viajantes: a estação de Ferrocarril Arica a La Paz, desativada há poucos anos. Passado o dia intenso em caminhadas, e após uma noite mal dormida, ceamos na varanda da cabana, com a brisa do mar, um lanche caprichado, com iguarias chilenas que trouxemos de um supermercado - sucos de damasco e durazno, pisco, pães os mais variados, queijos e azeitonas do Vale de Azapa, pertinho dali.
A sesta
É curioso que nessas cidades do Chile (e também em muitas da costa do Pacífico, no Peru) a sesta é quase institucionalizada. O comércio fecha por um período que se estende das 12:30 ou 13 horas até às 16 ou 17 horas. Nesse intervalo, enquanto o sol castiga, é como se a própria cidade adormecesse protegida em suas sombras. Hora em que muitos casais namoram nas praças públicas, aproveitando as gramas para bons e permitidos "amassos".
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