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TEXTOS E FOTOS
Rosa Moura
Johny Genvensis

WEB
Hilton Benke

 
Chile Sur

Parinacota - Sajama



Sajama


O Vale de Lluta

"Saímos pela manhã de Arica, de volta a La Paz, por Chilebus (U$ 18), pela carretera internacional, passando por Tambo Quemado, limite entre Chile e Bolívia. É um caminho que em poucas horas deixa o nível do mar e supera os 4500 m de altitude.

Em 8 horas de viagem, percorre 517 km e cruza do Pacífico ao altiplano. Deixa Arica beirando o Valle de Lluta - vale estreito, completamente agricultado. A 40 km, e já tendo subido 480 m, fica Poconchile, uma aldeia pré-incaica. A rodovia e a ferrovia seguem paralelas contornando o vale, ganhando altitude rapidamente, depois mais abruptamente, quando se inicia a cuesta El Aguila, mostrando o vale lá embaixo, encaixado e muito verde, contrariando a secura das encostas íngremes por onde vai pendurada a estrada. São curvas fechadas, cada uma descortinando imagem mais fantástica que a anterior.

Logo já não se vê mais o vale e a secura se torna plena numa paisagem que parece não ser possível à vida. Essa sensação se perdura até que aparecem os cactus candelabros, espécie em proteção, com um caule alto e ereto que se abre em pequenos caules na ponta, formando como que os tradicionais suportes para velas. São os vigilantes da montanha desértica, apontando um a um, distantes entre si, como que a postos. Nessa porção de estrada, com pouco mais de 80 km percorridos, já atingimos os 2.700 m de altitude.

Pequenos povoados da pré-cordilheira

No km 100 há indicativos de uma área para acampamentos, perto de Pukará de Copaquilla, uma aldeia fortaleza do início do século XIV, cujas construções de pedra se alojam descendo um quebrada muito íngreme. No km 120, a 3.270 m de altitude, está o Tambo de Zapahuíra (Monumento Nacional), e logo depois a entrada do caminho que ligava Arica a Potosi.

Paychatas

E os nevados se aproximam... Os primeiros, mais imponentes, são os nevados de Putre, como dois parceiros, lado a lado, vigiando a cidadezinha que se aloja num vale profundo. Putre, povoado pré-hispânico, guarda um acervo colonial do século XVII, e suas pequenas casinhas com telhados de zinco, brilha intensamente ao sol. Para quem vai de carro, é um ponto recomendado para aclimatação. Depois dos nevados de Putre, a natureza passa a ser regada com pequenos córregos que trazem consigo uma vegetação verde, rasteira, e llamas e vicuñas, também protegidas. É a área do Parque Nacional de Lauca, no Chile, já a mais de 3.500 m.

Após 150 km, já a mais de 4.300 m, atinge-se o altiplano, em área regada pelo Bofedal de Parinacota, uma zona pantanosa, hábitat da fauna altiplânica. Ali é possível observar os Payachatas - nevados fronteiriços a mais de 6 mil m de altitude.

Os Payachatas

Agora são dois outros parceiros que se impõem: Parinacota e Pomerape. Ambos com mais de 6 mil metros, brancos, banhados pelo conjunto de lagunas Cotacotani, interconectadas, alimentadas pelo lago Chungará (21 km2), onde se refletem majestosamente.

Nessa região há indicativos de saídas para vários povoados (Caqueña, Nasahuento, Visviri), com destaque para Parinacota, a 4 km da rodovia, que é também um Monumento Nacional, com uma igreja do século XVI, em adobe e pedra, com muros com pinturas muito coloridas e torre separada do corpo principal.

Passados quase 200 km de um subir contínuo estamos próximos à fronteira Chile/Bolívia, paso Chungará, com altitude de 4.667 m. Como a subida é muito rápida e se transpõe a linha em que o mal de altura pode incomodar, os ônibus, perto da fronteira, oferecem um lanche aos passageiros. É bom comer, pois a alimentação ajuda a combater os efeitos desse mal.

Na fronteira, durante os trâmites na polícia internacional, é bom também tomar um chazinho de coca, que é vendido em barraquinhas onde se forma a fila para carimbo do passaporte. É um trâmite demorado, tempo suficiente para se tomar boas fotos do Parinacota e do Guayatiri, vulcão ainda ativo, como comprova a fumarola que sai todo o tempo da ponta de seu cone, a 6.063 m.

Poucos quilômetros separam o controle aduaneiro do Chile do da Bolívia, e logo, outra parada para novos carimbos, Já em Tambo Quemado. Hora de trocar "pesos chilenos" por "bolivianos" com as índias que ficam ao longo da fila. Já estamos no altiplano. Continuamos a viagem dentro do Parque Nacional do Sajama, e é ele (com seus 6.550 m) quem impera por um bom tempo do trajeto.

Não há como não permanecer olhando para trás, pela janela, até que ele já não possa mais ser visto. No parque, que possui os mais altos bosques de keñua do mundo, a paisagem é típica do altiplano: vegetação baixa, quase ausente, casinhas de pedra isoladas, pequenos muros de pedra protegendo animais ou plantações que se confundem com a vegetação natural, muita quínua, índias e crianças cuidando de ovelhas ou llamas, e uma paz quase completa. Nele, as vicuñas também estão protegidas, e convivem com ñandus andinos, gatos andinos e toda uma avifauna que inclui o majestoso condor.

A 30 km da fronteira está a entrada para o povoado de Sajama, também com monumentos religiosos, estes do século XVIII. No parque, se encontra muitas lagunas (Macaya, Sacabaya e Huayña Khota), as águas termais de Wichu Khollu, os areais de Quisi Quisini e o canyon de Changa Mokho, além de pequenos povoados incas.

Patacamaya

Os 200 km seguintes, percorrendo o altiplano, anunciam muitos povoados, todos com monumentos religiosos dos séculos XVI ao XIX, dedicados à criação de gado llamar (llamas e alpacas) e produção artesanal, particularmente em lã. Em Patacamaya, já a 100 km de La Paz, ponto de confluência de várias rotas para o interior, houve uma parada onde desceram alguns passageiros. Outra vez a paisagem urbana boliviana: pequenos povoados aparentemente pobres (também com igrejas coloniais importantíssimas pelo acervo de arte andina), índias com seus sacos coloridos, sentadas diante de mercadinhos simples ou no acostamento, enquanto esperam transporte. Ali se entra na mesma rodovia que une La Paz a Oruro e aparecem os primeiros nevados que cercam a capital boliviana.

Em pouco tempo estamos em El Alto: o acúmulo de veículos que trafegam caoticamente, gente em calçadas, atravessando as ruas, um buzinar contínuo, ao mesmo tempo calmo, tudo acontecendo numa ordem incompreensível. Nesta chegada, La Paz estava iluminada pelo entardecer de um dia muito límpido. As chuvas tinham deixado a atmosfera transparente e eram nítidos os contornos da cidade subindo as íngremes vertentes do vale. Era nítida também a base do Illimani, mas ele permanecia envolto em nuvens. Como que se tornando difícil, para nos tornar mais ávidos por ele.

Diferenças nítidas

Não há como não considerar as diferenças entre regiões tão próximas. Na pampa árida do Chile, todos os vales ou quebradas são estreitos e milimetricamente agricultados, compondo um contraste nítido entre a secura do deserto e a fertilidade dos vales. Se vêem neles pequenos povoados e quase nunca qualquer espécie de gado. Fora dos vales, é como se não existisse vida. Menos ainda gente. Nos vales largos do altiplano da Bolívia, por mais árida que seja a região, há sempre a presença do gado cuidado por índios, e a agricultura se mescla com a vegetação do deserto, em terraços, às vezes protegida em muros de pedras ou blocos de barro marrom, da cor da paisagem. As pessoas estão presentes onde se crê impossível. E as pequenas casas aparecem penduradas nas vertentes mais íngremes.

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