Uma Toyota 4X4 vermelha, automática, manejada pelo Sr. Nestor, que além de motorista seria o guia e o cozinheiro do grupo, passou a ser nosso meio de transporte por 3 dias.
Escolhido quem iria no banco da frente, e programado um rodízio para que ninguém sofresse com os piores lugares, saímos da avenida principal de Uyuni meio que nos apresentando, numa mistura de espanhol, português e inglês. Joel e Dália, os israelitas que nos acompanharam na viagem, eram professores e viviam em um kibutz. Já haviam passado por Machu Pichu e seguiriam com destino a Santiago, onde tinham amigos.
Imediatamente, Sr. Nestor colocou uma fita de músicas do Carnaval de Oruro. O caminho em direção ao Salar retoma outro retão pela planície erma, até chegar, em menos de uma hora, a Colchani, um vilarejo com a mesma aparência desoladora dos núcleos urbanos dali, onde a população vive da extração, secagem e empacotamento de sal. Uma parada breve para conhecer o processamento do sal, percorrer entre montes de sal, comprar artesanatos de sal...
O Salar
E logo chegamos à margem do imenso Salar - de longe o maior do mundo, com seus 12 mil km2, a 3.665 metros de altitude, e camadas de sal que variam de 2 a 20 m de produndidade. Entendemos porque a Toyota estava com o pára-choques dianteiro coberto com um plástico azul: como havia chovido muito nos últimos dias, havia uma cobertura de água, e essa água salgada é corrosiva.Paramos na margem, para fotos, e pudemos observar os veículos, vans, ônibus, entrando pela lâmina d'água do Salar ou chegando por ela. Iniciamos a viagem.
A entrada no Salar é impressionante, e com água, mais ainda, um verdadeiro espelho! Dentro dele, a sensação de desorientação é total. Uma imagem polar, com o branco do sal parecendo uma imensa superfície de neve (óculos de sol são indispensáveis!). A água que levantava fazia parecer que estávamos num barco, e ao longe víamos refletir as nuvens e o azul tímido do céu. Nada mais, além de pequenos pontos escuros que eram outros veículos fazendo o mesmo percurso, mas sem aparente coincidência de roteiro.
Passados uns 40 minutos chegamos ao Hotel de Sal: uma construção toda em blocos de sal, que já serviu como hotel, mas hoje é apenas um museu. Todos os veículos param por lá. Embora curioso, o hotel não é tão convidativo, e o que vale é estar sobre a planície de sal, olhar para qualquer direção e ver apenas o branco... De volta ao trajeto, a sensação de desorientação aumentou. Principalmente porque o motorista olhava todo o tempo para os lados, para trás, pelo retrovisor. Perguntamos se o veículo não tinha bússola e como resposta descobrimos que ele tinha um bom altímetro! Mas a orientação estava nas montanhas, um pouco distantes, nas duas laterais do Salar, no vulcão Tuñupa, e nos demais pontinhos negros sobre o branco, que eram os veículos que faziam o mesmo que nós.
Isla Pescado
Confiamos no Sr. Nestor e em pouco mais de uma hora avistamos a Isla Pescado (a 80 km do Hotel de Sal), que ganhou esse nome por ter a forma de um peixe, mas cujo nome original é Inca Huasi, ou casa dos Incas. À medida que nos aproximávamos da ilha foram também se aproximando os demais pontinhos negros e logo estávamos contornando e literalmente aportando na entrada dessa reserva (a entrada foi de U$ 1).
Outro choque de deslumbramento. A ilha abrigava uma exuberante floresta de cactus milenares, alguns com mais de 10 m de altura, enormes rochas vulcânicas, e praias brancas de sal. Bem cuidada, infra-estruturada, com trilhas demarcadas que levam às suas partes altas de onde se pode admirar a infinitude do Salar, era a parada para almoço de todos os viajantes.
Enquanto fizemos o delicioso percurso de reconhecimento, cada veículo se posicionou frente a umas mesinhas alinhadas na orla, e seus respectivos cozinheiros deram conta de preparar rapidamente um cardápio mais ou menos comum e próprio para continuar viajando: carne assada na brasa, macarrão, salada de tomates e pepinos, gasosa e banana de sobremesa. Enquanto comíamos constatamos a sutil diferença entre os serviços das várias agências. Algumas levavam guarda-sol, outras montavam verdadeiras tendas com mesas grandes onde comiam vários grupos, outras deixavam seus integrantes ao sol. Foi o que passou com a nossa! Mas, diante do ineditismo da paisagem propiciada pela natureza, qual o mal de comer ao sol?
Recolhidos os pertences de cozinha, recolocado o isopor no bagageiro, seguimos adiante, ainda pelo Salar. Pudemos re-experimentar as sensações anteriores no pouco mais de uma hora que levamos para chegar à margem sul (uns 60 km da Ilha). Outra parada para uma foto de despedida.
San Juan del Rosário
Continuamos por uma estrada de terra em direção a San Juan del Rosário, passando por pequenas plantações de quínua, e vicuñas, muitas vicuñas. Quando chegamos, fomos avisados que um pneu havia furado, mas que tudo estaria bem para a manhã seguinte.
San Juan é outra vila com o mesmo ar desolador. As casas são voltadas para dentro, o que dá a impressão de estarem vazias. No lugarejo há um pequeno museu, um cemitério que faz parte do museu, e llamas, muitas llamas que permitem que nos aproximemos enquanto nos miram com um olhar lânguido e profundo. Em San Juan estão inúmeros alojamentos, pouco visíveis, mas que foram abrindo seus portões e escondendo as dezenas de 4X4 que chegavam no entardecer.
Caminhamos pelas ruas vazias, tomamos uma Huari numa vendinha tipicamente local, servida por uma índia de poucas palavras, e precisamente às 19 horas deveríamos estar a postos para o jantar. Nos alojamentos o esquema é idêntico para todos os grupos: oferecem quartos para 2, 4 ou mais pessoas (com boas camas, lençóis, cobertores), banheiros comuns com água quente, cozinha e espaço com mesas onde cada grupo faz a refeição noturna (sopa, arroz, frango e salada, chá ou café) e o café da manhã (com leite, chá, café, manteiga, geléia e até um bolo caseiro). À noite, a iluminação elétrica começa às 19 horas e termina por volta das 21:30.
Sobre Alpacas, Vicuñas e outros...
Passado o jantar, os grupos permanecem nas mesas trocando conversas em vários idiomas, bebericando o vinho ou as cervejas que trouxeram, e "viajando muito" nas lembranças de velhas façanhas e perspectivas. Revendo as imagens do dia, resolvemos tentar identificar as diferenças entre llamas, vicuñas, guanacos e alpacas, os camelídios que habitam o altiplano. Só mais tarde, passamos a ter clareza: as llamas são maiores, com diferentes tons de pelo, até malhadas, e domesticáveis. Serão sempre elas que estarão em pastoreio com as índias e crianças. As vicuñas são pequenas e de uma única cor, meio marrom claro, e são selvagens, não se deixam domesticar. Os guanacos, também selvagens e marrons, têm quase sempre a cabeça bem escura. E têm a peculiaridade de cuspirem! E as alpacas, pequenas, são as mais peludas. Não vimos guanacos em nossa viagem, tampouco alpacas.
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