Mirando-se nas águas espelhadas dos lagos sulinos, os vulcões concorrem em beleza e imponência. Se o Osorno (2652m) tem o cone mais perfeito e é visto num percurso de quilômetros, inclusive desde a Panamericana, o Villa Rica (2840m) impressiona pelo constante sopro de uma fumaça tranqüila, azul de dia e meio alaranjada em noites claras, porém que faz lembrar a todo o momento que nada está inativo na região. Em plena Cordilheira dos Andes, esse conjunto de vulcões faz parte do chamado "cinturão de fogo do Pacífico", zona sob pressão da dinâmica das placas continentais. Tem notícia de que nos anos 1640, 1750 e 1765, todo o conjunto entrou em erupção, numa reação em cadeia. O alinhamento do Villa Rica, Quetrupillán (2360m) e Lanin (3717m) sugerem um falhamento geológico, como cordão de escape do magma do interior da terra.
Na região, os mais ativos são o Llaima (3125m) e o Villa Rica, que tiveram 10 erupções seguidas nos anos 1990, além de outras manifestações menores, pequenos derrames de lavas, como se viu no Villa Rica em 1984. A última vez que as lavas desse vulcão atingiram as margens do lago foi em 1908; em 1971, a erupção provocou o derretimento da neve de seu cone, e uma enxurrada de lama, lava, cinza e material do arrasto, chamada "corrida dos vulcões", destruiu o antigo povoado de Coñaripe. Com atividade recente, o Riñinahue surgiu em 1922, na face norte do Puyehue (2240m), gerando uma nuvem de cinzas que contam ter alcançado Buenos Aires; e o Carrán, ainda em formação, surgiu em 1955, tendo tido uma seguida erupção em 1979. O Osorno teve sua última erupção em 1850 e o Calbuco (2015), em 1960 (o serrilhado de seu cone se deve à intensa explosão sofrida numa erupção em 1893). O Casablanca ou Antillanca (2240m) e o Puntiagudo (2190m), este com a chaminé em ponta, o que sugere seu nome, são considerados extintos.
É possível alcançar a cratera principal de muitos desses vulcões, em subidas que exigem condicionamento mínimo. Há agências preparadas com guias, roupas, sapatos e até máscaras especiais, para subidas de um dia inteiro (mas que montanhistas fazem em bem menos tempo). No início, são trilhas em cenários desérticos, sobre a cinza vulcânica, em meio à qual brotam vegetações delicadas, com flores de cores suaves, que se protegem nos pequenos montes de terrões, mas que sucumbem ao frio que aumenta com a altitude. Logo aparecem as línguas de neve, que descem pelas ranhuras das encostas. A neve eterna do topo dos cones faz a parte mais difícil do percurso, exigindo grampões nos calçados. Mas, dependendo do número de excursões e excursionistas, o sulco que se abre na neve forma uma trilha fácil de ser seguida até sem eles. Entre os vulcões, o Osorno é tido como o mais traiçoeiro, pois nuvens chegam rapidamente, desorientando os exploradores e colocando-os sob o risco das profundas gretas de suas encostas. Recomenda-se aguardar com calma a saída das nuvens, que é tão repentina quanto a chegada. O Puntiagudo é o de mais difícil acesso, além de ser perigoso pela quantidade de material solto e da pouca aderência na neve, tendo sido escalado por menos de uma dezena de andinistas nos últimos anos.
A aproximação dos cumes descortina imagens fantásticas dos lagos abaixo e dos vulcões concorrentes: são inesquecíveis as visões do Llaima, revelando-se acima de nuvens, na
subida do Villarica; o Calbuco, iluminado pelo poente, na subida do Osorno; o Cerro Tronador, silencioso em seus três picos, no caminho do Casa Blanca. No
Villarica, essa aproximação torna sua fumaça mais azul, densa, ameaçadora, e o cheiro dos gases emanados pela cratera não deixam de ativar a adrenalina. Vistos de longe, os excursionistas que importunam sua dormência, formam fileiras que pontuam a neve como carreira de formigas coloridas, num caminhar lento e cuidadoso. Tão pequenos e insignificantes quanto nossa presença diante do pulsar do interior da terra.
Todos os vulcões estão dentro de parques nacionais (atualmente sem taxa de entrada) e têm acesso à base por estradas de terra bem cuidadas. No inverno, em alguns funcionam estações de esqui, portanto, há teleféricos em operação, que facilitam o início da escalada. Alguns são equipados com resorts de montanha, como o Casa Blanca, na estação Antillanca; outros com cafeterias que funcionam o ano todo, como a Mirador, no Osorno; outros são menos providos no verão, mas no inverno oferecem refúgios com recursos básicos aos montanhistas. Sobre trilhas, há informações detalhadas em
www.andeshandbook.cl.
O café ou a "Escudo" litro da volta das caminhadas sempre dá margem a boas conversas. Na parada de Pucón, um senhor de idade avançada se emocionou ao lembrar a erupção de 1983: "esta lava que aparece no postal, eu vi!", e se calou trêmulo. Outros moradores, principalmente comerciantes, não temem novos derrames, pelo contrário, têm nos vulcões sua fonte de vida.